FILOSOFIA TEOLOGIA

Quando as lágrimas valem mais que a Teologia.

Moralismo matemático; ética socrática; responsabilidade afetiva; Jó; e cinco dicas para lidar com o sofrimento alheio.

Pare de ficar triste!

Deus está no comando de tudo! Por que você está assim?

São incentivadores comuns que ouvimos, não raras vezes por pessoas bem intencionadas.

O livro de Jó é sobre uma pessoa supostamente boa que passou um baita perrengue na vida. Do dia para a noite ele perdeu tudo: filhos, seus bens materiais e sua saúde.

Não demorou muito até seus amigos aparecerem para o consolar.

Porém, para seus amigos não havia espaço para o mistério. Nem para ambiguidade. Nenhum espaço para uma dúvida razoável. Eles tinham um moralismo matemático.

Segundo seus amigos, se Jó está sofrendo é possível apresentar uma explicação teológica.

Importante termos em mente que quando pisamos em terreno alheio, devemos tirar os calçados, e reconhecer que estamos caminhando em solo sagrado. Em linhas gerais, isso pode ser também entendido como responsabilidade afetiva.

Por isso, a primeira de dica de ouro é essa: apenas de seu comentário sobre alguém que esteja sofrendo ou angustiado se o outro pediu a sua opinião.

Na sociedade é bem comum encontrarmos pessoas que não seguem essa linha e se apressam para apresentar uma certa prescrição de medicação moral. Como se o mundo fosse em preto e branco. Sem tons de cinza, nem incertezas e nem ambiguidades. Faça isso e isso, e dará tudo certo.

E então, por isso agora apresento a segunda dica: as orações são mais úteis que as prescrições morais.

Digo isso porque algumas vezes, podemos criar uma situação desnecessária de condenação ao invés de conforto e compaixão.

E por que eventualmente agimos assim?

Acredito que nos falte humildade e até mesmo honestidade. Explico melhor.

Eu já me percebi no passado querendo ajudar as pessoas, porém, quando elas melhoravam ou se resolvessem nos seus conflitos, eu notava em mim um sentimento de irrelevância e inutilidade a partir dali.

Mas espere. Por que eu me sentia assim? Notei que estava ajudando para valorizar o meu ego. Criando assim uma relação de codependência: preciso de pessoas precisando de mim.

Como sair dessa?

Evoco Sócrates que nos ensinou a máxima: só sei que nada sei.

Nossa postura para ajudar alguém pode ter inspiração na filosofia ética socrática que nos incentiva a termos uma postura de humildade frente a situações complexas. Quando não queremos oferecer o melhor argumento. Mas sim, estarmos abertos a uma transformação interior, nem que isso seja estarmos expostos às nossas contradições.

Voltando a história de Jó, a teologia dos seus amigos era de regras a serem obedecidas; não de relacionamentos a serem vividos.

O mundo está cheio de pessoas assumidamente más que não sofrem, mas vivem no luxo até o fim de seus dias, e tudo lhes vai bem. A conta do mundo nem sempre fecha, por isso também existem as lágrimas.

Por essa razão, a terceira dica é que não podemos nos limitar a um moralismo simplista do tipo: se você está sofrendo é por que fez algo de errado ou Deus quer te ensinar alguma coisa. Esse moralismo simplista não dá espaço para as lágrimas.

Ao sermos rápidos para os clichês, e lentos para orar certamente podemos cair nesse equívoco de passarmos uma teologia fria.

Nós nunca iremos compreender totalmente a Deus. Logo, muito menos seu modo de agir, por essa razão não é recomendado em situações de luto ou de doença terminal apresentarmos discursos prontos. Acredito que isso vale também para esses dias atuais de pandemia.

Que nossas mentes não fiquem pequenas, nem nossas emoções limitadas! Tanto quanto a complexidade da angustia das pessoas que estão sofrendo em nossa volta.

Pedir à Deus por mais sensibilidade, é minha quarta dica.

Entre ter a falta de eloquência ou a insensibilidade. Tenha medo de ser insensível.

Há pessoas que estão chorando que não procuram encontrar uma resposta, mas sim serem encontradas por Deus. Não à toa, de tempos em tempos, não conseguimos o que queríamos, mas o que precisávamos.

Por fim, minha quinta e última dica é: tente deixar de lado a tendência que todos nós temos de dar respostas às perguntas, que alguém que está sofrendo nos faz. Em vez disso, responda estando presente no sofrimento dessa pessoa, sentando-se ao lado nas cinzas e chorando com ela.

Lembre-se de que o silêncio pode ser mais eloquente que o discurso, e as lágrimas podem ser mais eficientes que a teologia.

Não à toa, por duas vezes, a Bíblia registrou histórias que a resposta de Jesus para um problema era simplesmente o choro. Ainda que ele possa ser sim consolado, as lágrimas devem existir.

As lágrimas e o silêncio sendo mais eloquente que a teologia.

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