ARTE

Você nunca mais verá um filme da mesma maneira depois de ler este texto.

Te garanto que no final você poderá dizer: essa quarentena me deixou mais cinéfilo(a).

A arte de contar uma história surgiu com a seguinte finalidade: educar um grande número de pessoas a não desobedecer o Estado nem os deuses (metafísica). Essa definição é dada por Aristóteles. Há mais de 300 anos antes de Cristo. 

Não é à toa que os teatros gregos tinham uma narrativa moralizadora. O nome tragédia grega apontava para apresentar um bode expiatório, ou seja quando alguém não faz o certo, desobedece as leis do Estado ou dos deuses, no final seu destino é a morte. Com isso, toda a população que assistia a peça entendia claramente a mensagem passada. 

Chamaremos este primeiro momento da história da narrativa de primeiro campo. 

1º Campo: Tenho uma moralidade para te contar.

O jeito de contar uma história com essa finalidade de educar com uma moral vem desde o teatro grego até o filme Greenbook, vencedor do Oscar de melhor filme do ano de 2019. Quando nos é ensinado a mensagem: é errado ser racista. 

Green Book: O Guia (2019) direção de Peter Farrelly.

As características de um filme de primeiro campo tendem a mostrar um personagem plano. Fulano é racista e ponto. Ele é só isso, dificilmente apresenta camadas psicológicas diferentes. Estes personagens beiram o estereótipo. Em comédias de sitcon ou filmes da Disney é comum encontrarmos personagens assim. 

A existência dos personagens nesses filmes é idealizada. Os eventos ocorrem de forma muito rápida, dando a impressão que na vida as coisas acontecem desta forma. 

Outras característica é o efeito extraordinário que a vida pode tomar. Bem comum de se encontrar em filmes de super-herói. 

Mas a vida não é assim, certo amigos e amigas leitoras deste blog? Aliás, obrigado por terem lido até aqui kkk. 

Lá no século 19 d.C., devido aos movimentos marxistas a arte passou a ser afetada pelo discurso político. E não apenas isso, mas a forma de contar histórias passou a ser ressignificada. Agora, entramos no segundo campo.

2º campo: Tenho uma imoralidade para te contar.

Se eu contasse a história de um pai de família que perdeu seu emprego de maneira injusta, e encontrasse uma mala cheia de dinheiro, e por você se simpatizar com o personagem, passaria a torcer para que ele pegasse essa mala? Já que no seu íntimo, você reconheceria que não agiria tão diferente. 

Torcer para um anti-herói tem se tornado comum, e o sucesso de filmes como O Coringa, e até mesmo séries como La Casa de Papel, ou Breaking Bad estão aí para provar. 

Coringa (2019) direção de Todd Phillips.

O que o discurso marxista tem haver com isso? 

Vamos lá. O termo vilão vem das pessoas que moravam nas vilas durante o império romano, ou seja, os marginais e pobres, quando não eram vistos, eram identificados como pessoas ruins. Surge aí uma porta para discursar acerca da guerra de classes. Quem aí assistiu Parasita, vencedor do Oscar de melhor filme 2020? 

Filmes que retratam minorias, discriminação racial ou por gênero tomaram conta da recente história de Hollywood. Lembremos de Moonlight, também vencedor de Oscar de Melhor Filme de 2017. 

Para retratar estas pautas políticas foi necessário criar personagens com camadas, e não planos. Sua angústia passou a ser dúbia e a apresentar luzes e sombras. Transtornos psicológicos passaram a ganhar força nos personagens. 

Evoco o texto de São Paulo: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” Esta contradição torna um personagem rico em humanidade, e mais fácil para nos identificarmos com ele, ainda que ele seja um alguém desprezado pela sociedade ou um vilão. 

Sua existência não é idealizada, mas apresentada de forma difícil e parcimoniosa, ou seja as mudanças — quando ocorrem — surgem de forma lenta. Um processo muito parecido para quem já fez terapia, e percebeu seus altos e baixos, quando em uma semana sai da sessão achando que vai mudar de vida, e na sessão da semana seguinte já quer jogar a toalha. 

Geralmente nesse campo temos filmes lentos, onde somos convidados a conhecer os transtornos psicológicos de um personagem (entro nos detalhes destes transtornos em um próximo texto). Por isso, ao invés de termos eventos extraordinários, encontramos os ordinários

Mas pera lá um pouquinho (leia isso com a voz do Ciro Gomes), o segundo campo também tem a pretensão de nos ensinar, ou passar uma mensagem. Será sempre assim? Precisamos ser educados o tempo todo?

Pois então, eis que no século 20 alguns artistas passaram a reclamar dessa suposta presunção de educar as pessoas por meio da arte. Dizendo que no fundo o primeiro campo não diferencia tanto do segundo, pois ambos querem nos ensinar. E a arte poderia ficar limitada tanto na moral da metafísica (divina), ou da matéria (política ideológica). 

Então sejam bem-vindos ao terceiro campo.

3º campo: Tenho uma amoralidade para te contar.

Por que sempre tem que passar uma mensagem? Nietzsche acabou de nos dizer que Deus está morto.

Qual o sentido de lutar por uma verdade absoluta? A pós-verdade quer ganhar seu espaço na mesa. Moralizar não deveria ser o objetivo final da arte, segundo eles, mas sim para termos uma experiência. 

Estética, em termos filosóficos significa percepção, sensação e sensibilidade. É neste lugar que o terceiro campo quer fazer morada. Nessa experiência individualizada, onde você é quem dará o sentido para aquela história, baseado na sua cosmovisão. 

Os personagens de um filme assim não serão planos. E nem cheio de transtornos psicológicos, pois estes narradores dizem que os personagens de segundo campo são um grande Édipo gordo cheio de complexidades o tempo todo. Os precursores do terceiro campo dizem que na realidade somos mais próximos de um livro no Kindle, profundos, porém leves, que apenas deslizam de situação em situação sem ter necessariamente carregado algo para ser decifrado, já que mudamos de papéis constantemente no dia a dia. 

Vamos de exemplos. Na rotina normalmente assumimos diversos papéis. Ao entrar no Uber somos um passageiro, ao sair e entrar em nosso trabalho assumimos uma outra postura, que é diferente daquele de quando estamos em família ou com nossos amigos. Estamos constantemente deslizando de papel. 

Esses filmes não se apoiam em eventos extraordinários, nem ordinários, mas sim banais. Um filme de terceiro campo a ser citado aqui é o Estranhos no Paraíso de Jim Jarmusch. Uma narrativa que mostra imigrantes (muito comum no terceiro campo) com dificuldades de se adaptar aquela língua e cultura, e a mensagem do filme, como é próprio desse campo narrativo, fica totalmente com o telespectador. 

Estranhos no Paraíso (1984), direção de Jim Jarmush.

Outro tipo de filme de terceiro campo é aquele onde somos convidados a entrar em sonhos. E sonho por definição é algo banal, que muitos de nós temos com certa frequência, porém com uma narrativa aparentemente sem pé nem cabeça. Apenas alguns fragmentos que guardamos no nosso inconsciente. Para ilustrar a dica aqui é o filme Império dos Sonhos de David Lynch:

Império dos Sonhos (2006), David Lynch.

Quem bebe dessa fonte do terceiro campo também é o chamado Teatro do Absurdo:

A Cantora Careca , peça de Eugène Ionesco.

Revisão

Para deixar claro a mensagem de cada campo narrativo vou me apoiar na pintura. 

Mona Lisa é um exemplo de quadro de primeiro campo, pois tem uma mensagem clara ali que não nos deixa dúvidas que vemos uma mulher sorrindo.

Mona Lisa, A Gioconda, pintura de Leonardo da Vinci

Picasso, já é mais próprio do segundo campo, porque podemos ver que há alguém ali, porém com uma mensagem borrada, distorcida, imoralizada que precisa de um esforço nosso às vezes para codificar a mensagem.

Busto de Mulher (1944), de Pablo Picasso

Jackson Pollock é um tipo de pintura de terceiro campo, porque ela nos convida a entrar na estética abrindo espaço para inferirmos o sentido que damos a aquela obra.

Ritmo de outono (Número 30), 1950, Jackson Pollock

E aí, com qual campo narrativo você tem mais interesse de assistir? Viu como dá pra ser cult? kkk

Para quem chegou até aqui por causa do sorteio. Manda aquele clique da sorte aqui.

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